Como ser Feliz a comer?

A alimentação é um assunto extremamente complexo, que envolve muitas variáveis e que, direta ou indiretamente, afetam tudo aquilo que somos ou sentimos.

Um dos aspetos mais importantes na alimentação é a parte psicológica da mesma. Apesar de ser fundamental a parte matemática associada ao cálculo das calorias e dos diferentes nutrimentos, quando se muda alguma coisa na alimentação, essa mudança tem que fazer sentido para a pessoa.

Dito de uma forma simples, de que é que adianta eu prescrever um plano “perfeito” do ponto de vista nutricional, se a pessoa tiver que passar a comer de uma forma com a qual não se identifica no seu dia-a-dia?

É de extrema importância que a alimentação seja uma fonte de bem-estar psicológico, e isso nunca deve ser desvalorizado.

 

Na realidade, quando alguém anda mais stressado ou ansioso, na maior parte das vezes utiliza determinados alimentos para obter algum conforto como, por exemplo, o chocolate ou o gelado. Ou então, vai para a cozinha e começa a cozinhar… Ou pode ainda ir às compras, comprar determinados alimentos, que regra geral, são sempre muito calóricos.

 

Portanto, a alimentação, e dito de uma forma mais abrangente, a forma como lidamos com os alimentos, é um importante fator que contribui para a nossa individualidade em cada instante.

Olhando de forma mais científica, a alimentação tem o poder de alterar o funcionamento do cérebro, atuando nos chamados “centros de recompensa”, tal como acontece com outras substâncias como, por exemplo, as drogas.

 

Globalmente, o açúcar e a gordura tendem a ser dois fatores que promovem a felicidade, ainda que, como é óbvio, as preferências individuais sejam igualmente importantes. Se a estas ideias somarmos o facto de que, ver os outros comerem comida preparada ou oferecida por nós, é também por si só um cenário de conforto mental, facilmente se percebe que há uma ligação forte entre a alimentação e o que se sente emocionalmente… Se alimentar os outros é um ato de amor (basta pensar na felicidade que dá vermos um filho a comer com satisfação aquilo que lhe damos), então alimentarmo-nos (corretamente!), é também um ato de amor… próprio!

 

E se a regra deve ser comer bem, valorizando escolhas alimentares saudáveis, não nos podemos esquecer dos pequenos prazeres alimentares que por vezes fazem tanta falta.

Existe uma relação inegável entre a alimentação e o nosso bem-estar psicológico, que envolve não apenas a parte do consumo dos alimentos, mas também a sua escolha e preparação.

 

Mesmo que a pessoa esteja a fazer dieta, tem de existir margem para que, com bom senso, alguns alimentos possam ser ingeridos em determinadas alturas. Ou, dito de outra forma, mesmo quem quer perder peso deve ser capaz de o fazer continuando a obter prazer com a alimentação!

 

Por último, convém não esquecer que há determinadas cores, formas e texturas dos alimentos que estão associados a uma maior felicidade por parte de quem os consome.

Além disso, como comer é também um ato emocional, pois há determinadas memórias que são criadas durante a alimentação e que criam um vínculo emocional com determinados alimentos. Por isso é que, mais tarde, a visualização desses alimentos, o sentir o seu cheiro ou a ingestão dos mesmos acabam por trazer-nos felicidade, pois trazem à memória boas recordações…

 

Concluindo, não há dúvidas que comer não serve apenas para satisfazer necessidades básicas. Há muito para lá dessa ideia, nomeadamente o bem-estar psicológico.

A alimentação está intimamente relacionada com o bem-estar psicológico e, em particular, com a sensação de felicidade.

Perceber o que determina a felicidade associada à alimentação é um passo fundamental para se perceber como é que se pode alterar hábitos alimentares, sem diminuir a felicidade de quem os altera e, se possível, aumentando a mesma!

Rúben Pinheiro

Nutricionista

Prof. Universidade Sénior