A Felicidade e a

perspetiva da psicologia positiva

Durante largas décadas de desenvolvimento da psicologia como ciência, assistiu-se a um maior enfoque desta ciência nos processos patológicos, ou seja, na doença.

Pese embora a psicologia sempre tenha advogado um olhar sistémico e amplo, desde a prevenção à cura, a verdade é que até à entrada deste século, a maioria da investigação em psicologia era centrada na compreensão de como curar a pessoa, livrando-a da doença (ou reduzido o mal-estar).

As emoções negativas, como o medo, a raiva ou tristeza pareciam despertar maiores atenções e a emergência de fenómenos psicopatológicos contemporâneos (como por exemplo, as doenças psicossomáticas) tornavam premente desenvolver estudos voltados para a remediação. O campo da “pessoa doente” era um terreno fértil para os estudos e tornava-se aliciante investigar nesta área.

Todavia, sabia-se que a pessoa não nasce “doente”, ela torna-se “doente” nalgum momento da vida. Portanto, a noção de que a doença e a saúde são estados intrínsecos ao ser humano orientou inúmeras pesquisas com maior foco na saúde e na forma de promover o bem-estar.

Em consequência, o olhar da psicologia dirigiu-se, de forma mais expressiva, para as emoções positivas e para a compreensão da forma como essas emoções potenciam os recursos da pessoa, inclusive no confronto com a doença.

De um modo sucinto, é assim que surgem os principais estudos da psicologia positiva – um campo da psicologia voltado para o estudo das emoções positivas, forças e virtudes humanas -, nos quais Martin Seligman teve (e tem) um contributo notável.

Em 2002, este autor publicou “Authentic Happiness” (Felicidade Autêntica), onde relata as suas reflexões sobre a psicologia positiva e a sua relação com a felicidade. É aqui que Seligman advoga a existência de três pilares no estudo em psicologia positiva: i) estudo da emoção positiva; ii) estudo dos traços positivos do ser humano (por exemplo, os capacidades e recursos pessoais); e iii) o estudo das instituições positivas, como a democracia, a família e a liberdade, que dão apoio à expressão dos recursos pessoais e favorecem as emoções positivas.

Ainda nesse trabalho, Seligman refere-se à “felicidade” também como “bem-estar subjetivo”; constructos que incluem sentimentos e atividades positivas e que são vivenciados de maneira individual e subjetiva.

Na psicologia positiva, a experiência de felicidade é pessoal e parece resultar de uma vivência de “dentro para fora”. Por outras palavras, as pessoas que se conhecem melhor parecem demonstrar maiores habilidades para recrutar os melhores recursos em prol da resolução de problemas e, consequentemente, sentem-se mais aptas para relacionamentos saudáveis e positivos.

Desta forma, podemos afirmar que sentimentos positivos de satisfação pessoal (por exemplo, sentir-me competente) contribuem para construir uma autoestima congruente que conduz a um afeto positivo interno e externo, dirigido na relação connosco próprios e com os outros. Estudos do início do século postularam que as pessoas que se consideravam mais felizes (satisfeitas com a sua vida) eram aquelas que mantinham melhores e maiores contactos sociais. Esta constatação levou a que se considerasse a existência de relações sociais estáveis e positivas, um elemento que parecia nuclear à felicidade.

Outro elemento central, parecia ser a personalidade. As investigações demonstraram que uma pessoa com tendência à extroversão tinha uma perceção mais positiva de si própria. Ainda hoje, este é um tema controverso, mas parece plausível que existam caraterísticas de personalidade que contribuam para que a pessoa seja mais otimista e mais positiva em relação a si e aos outros. Consequentemente, isso afetará a maneira como se reconhece enquanto “pessoa feliz” por estar mais capaz de sentir e expressar afeto positivo. A maior polémica parece ser: já nascemos com maior tendência a sermos otimistas e felizes? Para já, essa resposta ainda não é cabal, mas a epigenética traz algumas clarificações. É plausível que nasçamos com traços de personalidade que podem ou não ser potenciados (de maneira positiva ou negativa) pelas experiências de vida.

Algo que parece ser consensual reside na frequência e intensidade com que experienciamos emoções positivas. Pessoas que relatam sentir emoções positivas mais intensas e mais vezes, são aquelas que reportam maiores níveis de felicidade. É por isso compreensível que se tenha considerado que a felicidade pode estar “nas nossas cabeças”, ou seja, na maneira como experienciamos as emoções e as expressamos. Também a forma como isso modela os nossos pensamentos parece contribuir para a felicidade: pessoas mais felizes são as que conseguem apreciar mais o que têm do que se prendem àquilo que não têm.

Os estudos neste campo evidenciam que a felicidade está associada à saúde e à longevidade. Apesar de ainda necessitarmos de maior e melhor evidência, parece claro que as pessoas que se sentem mais felizes são as que experienciam menos doença. Contudo, é plausível que estar num maior estado de saúde contribua para maiores experiências emocionais positivas e isso reforça-se consequentemente, como um ciclo positivo que mantém a saúde e felicidade.

Um achado curioso tem a ver com a baixa correlação entre felicidade e rendimentos económicos. Ou seja, ter um bom rendimento económico não significa “sentir-se feliz”, obrigatoriamente. Os estudos mostram que essa correlação existe em classes socioeconómicas muito desfavorecidas, mas apenas até certo ponto.

A felicidade tem sido o tema central do estudo em psicologia positiva, como tal interessa continuar a procurar compreender este “estado subjetivo da experiência humana”.

Marco Martins Bento

Psicólogo Clínico

Psicoterapeuta